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quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Mar Morto



Explode o mar que te condena

Resiste a areia em permeável solidão

No entanto, eis-me aqui convalescente

Ao estibordo sem visão

E, enquanto o Sol sai de cena

Sem deixar remanescentes

Respira o último ar que te apavora

E verás o fracasso de teus pulmões

Pois a morte não te demora

Em teu respeito - convulsões!

Pra que deixastes âncoras?

Se o teu fígado é o que te pesas

E no topor febril de tuas lembranças

Balança-te o barco sem qualquer pressa.


Fernando Kosta

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

BOÊMIO



Delícia e engano bom que é, para tantos,
a Vida — para mim, é, nada menos
— a conjura de todos os quebrantos,
— a ruim mescla de todos os venenos...

Ou, pela dor dos meus contínuos trenos,
praz ao céu eleger-me um dos seus santos,
ou é, talvez, de humildes e pequenos
não ter glórias, prazeres, nem encantos.

A vida é um bem, e é um mal, que se biparte:
se uma lágrima flui nos olhos, uma
alegria dos lábios ri, destarte!

Mas para mim a vida é só e em suma
— cumprir deveres mil em toda a parte
e direitos não ter em parte alguma..."

Hermes Fontes

SUPERSTIÇÃO





As duas iniciais do nome a que respondo
( e é pena que, horas e horas, me atarefe nesta superstição!)
As duas iniciais do meu nome - H.F. -
Têm um simbolo bom, junto a um símbolo hediondo,
Um destino de herói e de um vilão:
Há no H uma escada, um degrau de subida,
Uma vaga noção de arquitetura,
Interrompida...
O F é, porém, fôrca... Poste fatal...
Marco do fim da vida...
Guindaste de almas para a sepultura,
Para a eterna Altura, para o Além...
Para subir à fôrca do meu F tenho
Ao lado uma escada - o meu H.
Carrasco, magarefe, alto lá! Alto lá!
Por suas iniciais, meu nome ensina a não temer pressentimentos vãos.
Ergástulo, fogueira, ou guilhotina, cicuta, ópio, ou morfina...
-Quem sabe a sua sina?
-Quem sabe lá se há de morrer por suas mãos?

Hermes Fontes